Curiosidades sobre Madrid (parte 1)

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Camiseta na vitrine da loja Typographia, no centro de Madrid (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Há semanas eu ensaio um post sobre peculiaridades de Madrid, mas esbarrava no receio de terminar com um texto gigante. Por isso, decidi separar minhas observações em partes. Aos poucos, vou publicando e contando sobre curiosidades da vida por aqui. A pergunta que mais escuto no Brasil é sobre a famigerada siesta. É comum pensar na siesta como lenda urbana, mas ela de fato existe. Explicarei a seguir – no primeiro de muitos posts sobre hábitos madrileños.

Siesta

A siesta faz parte da cultura e da rotina do madrilenho, só que não exatamente como se imagina fora no Brasil. Não escuto relatos frequentes de sonecas pós-almoço, mas boa parte do comércio fecha, geralmente entre 14h e 17h, para um descanso (alguns dormem, outros não – diferente do interior, onde dormir é quase regra). Perdi a conta de quantas vezes bati de cara com a porta em farmácias e papelarias por volta das 16h, horário em que tudo quanto é lugar está aberto no Brasil. A vantagem é que os estabelecimentos funcionam até mais tarde no fim do dia – uns até as 20h, outros mantêm as portas abertas até as 22h, por exemplo.

O madrilenho costuma almoçar sem pressa e fazer um intervalo à tarde, mas não é uma regra e depende do lugar e do tipo de trabalho. A máxima vale mais para o comércio (lojas de rua, padarias, farmácias etc.), mas não atinge lojas grandes e shoppings, assim como museus e atrações turísticas em geral, nem estabelecimentos que ficam no centrão. Ou seja, a siesta pouco afeta a vida dos turistas, já que em locais como Puerta del Sol e Gran Vía tudo funciona o dia inteiro. Quem mora em Madrid sente mais, naturalmente.

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Horários da Vodafone do bairro Deliciais, com intervalo para a siesta (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

O curioso é que a mesma loja tem horário de funcionamento diferente dependendo da região. A filial da Vodafone (empresa de telefonia) do bairro Delicias, por exemplo, fecha das 14h às 17h30 para a siesta. Já a Vodafone do Sol fica aberta sem intervalos.

Fora do centro, quase todos os locais aderem ao descanso, com exceção dos estabelecimentos comandados por estrangeiros, como os “mercados chinos” (que ficam abertos até bem mais tarde do que o comércio em geral). Logo, pensando em Madrid como um todo, sobretudo fora da zona turística, a siesta é uma realidade – e eu custei um pouco a me acostumar.

Um adendo: a Espanha demorou para transformar a siesta num negócio, mas finalmente aconteceu. Neste ano, foi inaugurado o Siesta and Go, primeiro lugar do país dedicado ao descanso durante o dia. O “siestódromo” fica no núcleo empresarial de Madrid. Você pode alugar um sofá ou um quarto inteiro por minutos ou horas. Como nem todo mundo dorme de fato na siesta, o local oferece café, jornal, livro, tablet e internet. O silêncio é absoluto; nem despertador é permitido. O cliente avisa na entrada o horário em que pretende ser acordado por um funcionário, se for o caso.

Horários

Pegando carona no tópico siesta, cabe uma explicação sobre o fuso especial dos espanhóis. Em Madrid, pelo menos, a vida só começa por volta das 8h30, 9h. O almoço, que para muitos brasileiros acontece ao meio-dia, dá as caras por aqui umas 14h. É até possível tomar um segundo café da manhã entre 11h e 12h. Se você chegar cedo a um restaurante para almoçar, tipo meio-dia, pode encontrar um aviso de fechado ou ter que esperar mais do que gostaria na mesa. No caso de restaurante que funciona o dia todo, provavelmente vão te oferecer o cardápio do café da manhã.

Como você deve imaginar, Madrid janta tarde também. É possível reservar mesa em restaurante para comer às 23h numa segunda-feira. Aliás, o madrilenho sai tarde e volta tarde para casa. Os bares ficam cheios desde cedo, já que muita gente emenda o trabalho com a cerveja, mas as boates demoram para engrenar. Muitas só enchem por volta das 3h da madrugada. Povo animado, né?!

Comida

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Menú del día no restaurante La Sal, na Calle Embajadores, por 10,50 euros (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

É muito comum pedir o “menú del día” dos restaurantes no almoço. Por um preço bem acessível, come-se primeiro prato e segundo prato, com bebida e sobremesa ou café incluídos. Geralmente, os restaurantes colocam chope e taça de vinho entre as opções de bebida do menu (o que é maravilhoso).

Uma curiosidade aqui: o prato inicial não é necessariamente uma entrada. É normal comer paella ou macarrão para abrir o apetite e depois seguir para algum tipo de carne, por exemplo. Um dos pratos costuma vir com pão de acompanhamento (o que também é maravilhoso).

O brasileiro consome muita carne bovina – tanto em casa quanto nos restaurantes. Já notei que por aqui há outras carnes no topo das preferências, como a de porco e o frango, além do pescado em geral. Em Madrid se come carne de boi e vaca (há, inclusive, boas ofertas de restaurantes argentinos e pelo menos duas belas churrascarias brasileiras na cidade), mas bem menos do que no Brasil.

As tapas também merecem destaque no item gastronômico. Embora muitos restaurantes fechem entrem almoço e jantar (das 16h às 20h, por aí), inclusive nas zonas mais turísticas, há bares abertos o dia todo. Você pode matar a fome à tarde com um pedaço de tortilla ou um pão com tomate, por exemplo. Outra opção é pedir apenas uma caña, o chope daqui, e esperar a surpresa. As casas servem, junto com as bebidas, belisquetes sem cobrar nada a mais (normalmente azeitonas ou batatas chips). Alguns bares oferecem porções bem generosas e elaboradas.

Dicas extras! No caso dos restaurantes (e bares mais badalados), é sempre bom conferir se há necessidade de reservar mesa, o que é frequente por aqui. Outro costume é esperar na entrada pelo garçom ou maître, que vai te encaminhar até a mesa. Não é comum entrar e escolher aleatoriamente uma mesa. No caso dos bares, em geral, você pode beber em pé. O madrilenho não se preocupa em sentar numa boa mesa porque não tem o hábito de ficar muito tempo no mesmo lugar. É normal por aqui passar por uns cinco bares numa única noite. Povo animado, né (2)?!

Cartão e gorjeta

Nem todos os estabelecimentos aceitam cartão em Madrid. Restaurantes e supermercados aceitam, claro, mas há muitos mercadinhos de rua onde se pode pagar apenas com dinheiro. Os bares costumam aceitar cartão, mas alguns só permitem a transação a partir de um determinado valor, como dez euros. Neste caso, não dá para tomar uns poucos chopes e usar o cartão. Aqui é sempre bom ter dinheiro no bolso, nem que sejam umas moedas.

Ainda no tema pagar conta, na Espanha há o que chamamos de propina, que são as gorjetas. E são bem mais comuns do que no Brasil, uma vez que a conta não vem com os 10% de serviço (o IVA, imposto presente nas contas, nada tem a ver com isso). Os garçons espanhóis não esperam gorjetas generosas, como ocorre em algumas cidades europeias, mas é comum deixar algo. Os clientes costumam usar o bom atendimento como critério para decidir o valor (embora o espanhol tenha fama de deixar pouquíssima propina quase sempre). Eu tento dar algo em torno de 10% da conta.

Uma curiosidade: por lei, os táxis de Madrid devem aceitar pagamento com cartão, mas esta é uma regra relativamente recente. Meu conselho é avisar antes como se deseja pagar e evitar problemas ao fim da corrida, já que alguns taxistas ainda parecem fazer corpo mole para garantir o pagamento em dinheiro.

Água da torneira

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Fonte de água potável no Parque del Retiro (crédito: Agencia EFE)

Aqui a água é potável e considerada a melhor do país. Costuma-se tomar diretamente da torneira (grifo em espanhol) nas casas e até nos estabelecimentos. Se você pedir uma água, é possível que escute como resposta: “mineral o de grifo?”. Se preferir, peça apenas um copo de água da torneira nos bares e restaurantes (basta dizer “un vaso de agua”). Alguns lugares, como o VIP’s, servem até jarra com água da torneira nas mesas.

Também é possível tomar água nas ruas. A prefeitura de Madrid anunciou que vai instalar 284 novas fontes de água potável pela cidade até 2019, a maioria no centro. As fontes terão um novo desenho e haverá uma adaptação a fim de evitar o roubo das torneiras (pois é). E virão com um aviso “bebe aquí agua de Madrid”. Atualmente, são 1.625 fontes de água potável pelas ruas. Como o clima de Madrid é muito seco e a temperatura é alta no verão, aproveite a qualidade da água e abuse.

Chegou até aqui? Veja também o post “Curiosidade sobre Madrid (parte 2)”. =)

3 comentários Adicione o seu

  1. Claudiane disse:

    Gostei muito do se post,espero poder conhecer Madri

    Curtido por 1 pessoa

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