Por mais Carmenas e menos Ayusos na política de Madrid

Todos os dias eu conto quanto tempo falta para acabar o desgoverno Bolsonaro e sofro com a possibilidade de reeleição. Boa parte da minha energia tem sido consumida por esse looping desesperador. Surpreendentemente, sobra tempo para passar raiva com Isabel Díaz Ayuso, presidenta de la Comunidad de Madrid, ou seja, governadora de Madrid. Além de liderar uma gestão tenebrosa no combate ao coronavírus, agora culpa imigrantes pela expansão da pandemia.

Na verdade, o que Ayuso mais fez desde março foi apontar culpados e fugir da responsabilidade. Para justificar o caos, negou o óbvio muitas vezes e se fez de vítima das circunstâncias (e das esquerdas, claro). Quero muito apoiar as mulheres na política espanhola e acho fundamental que o Congresso esteja mais feminino, mas não dá para fazer vista grossa e ignorar a péssima política feita por Ayuso. 

Eu tinha uma lista de temas para desenvolver aqui no blog, mas abro um parêntesis improvisado para este post-desabafo. Afinal, não posso passar raiva sozinha. Raiva compartilhada não faz tão mal para a saúde (teoria minha mesmo).

Primeiro, é preciso contextualizar: a imprensa espanhola coloca Madrid como o epicentro europeu do novo coronavírus. De fato, a proporção de casos por habitantes, inclusive no que podemos chamar de segunda onda, é bem maior do que a de todas as regiões que pesquisei.

São aproximadamente 700 contágios por 100.000 habitantes atualmente (a média nacional é 267). E, durante a primeira onda, nenhuma grande cidade do continente registrou tantas mortes quanto Madrid. 

O governo estadual, comandado pelo PP, tradicional partido de direita, concentra as críticas mais duras em relação à gestão da crise sanitária no país. Isso por conta de sua política irresponsável e neoliberal – mais preocupada em privatizar do que em investir em saúde pública – na comunidade espanhola que mais perdeu vidas para o coronavírus até agora.

Ayuso não queria fechar Madrid em março e criticou inúmeras vezes o estado de alarme / emergência, que foi liderado pelo governo central de Pedro Sánchez (PSOE). A partir da reabertura, em junho, cada comunidade autônoma passou a gerenciar o processo em sua região. É preciso destacar que a pandemia estava bem controlada naquele momento, inclusive em Madrid.

Só que não demorou muito para a comunidade voltar a ter os piores números da Espanha. Outras regiões, como a Catalunha, começaram mal o desconfinamento, mas aos poucos foram controlando a situação. O caminho foi inverso em Madrid, que concentra cerca de 35% dos novos casos do país agora.

E, assim como aconteceu nos primeiros meses de pandemia, existe uma preocupação forte que Madrid espalhe o vírus para o resto da Espanha.

Ayuso não se mostrou só despreparada e perdida, mas revelou (ou confirmou) o que há de pior na velha direita, que hoje em dia anda de mãos dadas com a ultradireita neofascista. E não falo no sentido figurado, não. Para voltar ao poder em algumas regiões e cidades da Espanha, como em Madrid, o PP se rendeu ao Vox, partido formado por saudosos do franquismo. Não imaginei mesmo que Pablo Casado e companhia chegariam a essa ponto.

Faltam rastreadores em Madrid, fato, mas falta também humanidade ao governo. A questão é que o PP como um todo, não só Ayuso, parece mais preocupado em usar a pandemia para fins eleitorais, com a intenção óbvia de minar o governo de coalizão formado por PSOE e Unidas Podemos. Isso enquanto milhares de vidas se vão na Espanha.

Depois de culpar a passeata das mulheres, em 8 de março, a falta de controle no aeroporto de Barajas e, principalmente, a esquerda por tudo de ruim que aconteceu numa comunidade administrada pelo PP e seus comparsas, agora Ayuso diz que o modo de vida dos imigrantes é um dos fatores para o recente aumento de casos em Madrid.

Para justificar, ela destacou a quantidade de infectados nos distritos mais pobres ao sul da capital. Pelo visto, desigualdade social é estilo de vida para o PP. Até porque muitos imigrantes moram juntos em apartamentos minúsculos porque querem, óbvio (contém ironia).

A declaração de Ayuso acaba por reforçar estigmas e estimular um discurso de ódio aos estrangeiros, que são muitos em Madrid. Pensei que essa fosse a função do Vox na política espanhola, já que o PP tenta se passar por “moderado” nos dias atuais. Ayuso sublinha também o que venho notando há tempos: PP e Vox não estão tão distantes assim no pensamento.

Que falta faz Manuela Carmena, ex-prefeita que liderou uma gestão moderna, tolerante e inclusiva em Madrid. Saiba mais!

Agora cabe ao Ciudadanos, elo mais fraco em termos de votos na aliança das direitas, se afastar desse tipo de política e se fixar num patamar mais democrático. Afinal, é possível fazer oposição a um governo de esquerda sem cair nas garras do neofascismo. Parece que é isso que o partido já começa a ensaiar, com o apoio ao estado de alarme e a conversa sobre o orçamento de gastos com Sánchez.

Pensando em termos práticos e eleitorais, existe um vácuo atualmente no centro, que é onde muitos espanhóis se encaixam ideologicamente. Isso porque o PP caminha a passos largos para a ultradireita. Ciudadanos percebeu e, por sinal, já avançou nas pesquisas de intenção de voto para a próxima eleição geral. Mesmo assim, enquanto fizer parte dos governos do PP, a mudança é pouco significativa.

Existe uma ameaça de moção de censura na Comunidade de Madrid, que é um mecanismo do parlamentarismo para destituir um governo. Expliquei melhor neste
post. A questão é que a oposição em Madrid ainda não parece ter força suficiente para superar os votos dos partidos que formam a aliança do governo estadual (PP, Cs e Vox).

Isolamento parcial

Ontem, depois de muitas declarações vagas, desencontradas e contraditórias, o governo estadual divulgou novas medidas para conter o avanço do coronavírus na comunidade, inclusive impondo restrições em 37 áreas. Isso significa que 13% da população de Madrid será afetada por essa espécie de confinamento seletivoNo caso de Madrid capital, entram na lista justamente distritos mais pobres da cidade.

Nesses locais, só será possível sair para trabalhar, levar as crianças ao colégio, cuidar dos idosos e atender a chamados da justiça por pelo menos duas semanas. Eu imaginei mesmo que a região terminaria setembro fechada – toda fechada, não parcialmente fechada.

Em resposta, centenas de pessoas foram à Puerta del Sol, onde fica a sede do governo estadual, pedir a saída de Ayuso, acusada de “classista e fascista” pelos manifestantes. “Isso não é confinamento, é segregação” e “Não queremos pizza, queremos saúde” foram alguns dos lemas do protesto.

“Dezenas de medidas duríssimas de segregação seletiva e nem uma maldita medida de investimento público em saúde, educação, moradia ou transporte”, reclamou o perfil @PlanDeChoque no Twitter.

Vi muitas críticas dos moradores de Vallecas, bairro com bastante consciência de classe e historicamente mais alinhado com os partidos de esquerda. Questionam de que adianta essa medida levando em conta que eles precisam sair para trabalhar e pegar o metrô lotado no pior horário e entendem que o número alto de infecções no bairro tem uma explicação social – e é aí que o governo deve atuar. 

Para Iñigo Errejón, líder do Más País, partido de oposição ao PP de Ayuso, a medida é “segregação de classe”, além de “ineficaz e injusta”. Já o porta-voz do PSOE em Madrid, Ángel Gabilondo, afirmou que as restrições, sem “medidas sanitárias contundentes” ao mesmo tempo, não vão passar de um “alívio temporário”.  Faz sentido.

Os especialistas ouvidos pelo El País acham que as medidas chegam tarde e são insuficientes. A boa notícia é que o presidente do governo, Pedro Sánchez, vai até o gabinete de Isabel Díaz Ayuso, na próxima segunda, se reunir com a governadora para buscar soluções em conjunto no combate ao avanço do coronavírus em Madrid.

“Veja, senhor presidente, nós só sabemos sucatear colégios e vender hospitais em parcelas, mas sobre privatizar vírus não temos a menor ideia. Para nos salvar do coronavírus, primeiro tem que nos salvar de Ayuso (do editorial Catástrofes Ayuso, no Púlbico).”

Leia também: Novos casos de coronavírus, crise política, negacionismo e incertezas em Madrid

FOTO EM DESTAQUE: PROTESTO CONTRA AYUSO POR EUROPA PRESS

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