Novos casos de coronavírus, crise política, negacionismo e incertezas em Madrid

Ando sumida do blog por uma série de motivos. Um deles é que não tenho intenção de estimular saídas sem necessidade enquanto a pandemia ainda for uma realidade. Na contramão do que tenho observado nos últimos meses, eu acredito que este é um momento de isolamento e sacrifícios até que surja uma vacina segura ou um tratamento de fato eficaz. E, sem esse pacto social, ao menos entre quem pode cumpri-lo, as consequências são cada vez mais extensas e tristes.

Inclusive na Espanha, que voltou a ser o país europeu com mais casos por habitantes nas últimas semanas (150 por 100.000). Nada que se compare ao Brasil, mas a “nova realidade” já preocupa. O epidemiologista Fernando Simón, do Ministério da Saúde, avisou ontem que “as coisas não vão bem”.

Quem tem amigos na área de saúde sabe que a situação é pior do que se anuncia oficialmente, já que existe um certo delay na atualização dos casos. A boa notícia (alguma é necessária para a nossa estabilidade emocional) é que o vírus está menos letal e um novo colapso nos hospitais não parece provável.

O país foi um dos mais castigados pela pandemia e a crise econômica entre março e maio. Depois de um lockdown dos mais longos e rígidos do continente, com queda significativa de contágios, a Espanha promoveu uma reabertura relativamente rápida em junho.

A partir daí, cada comunidade autônoma passou a comandar o processo em sua região e, por isso, não houve mais uniformidade nas regras. Madrid, por exemplo, foi uma das últimas a tornar o uso de máscara obrigatório.

O objetivo do governo espanhol era se recuperar financeiramente ao longo do verão. O problema é que a realidade foi um tanto frustrante. Dezenas de países impuseram novas restrições para viagens à Espanha. O verão acabou não sendo tão lucrativo assim, principalmente pelo vácuo no turismo internacional, e o contágio se multiplicou com mais rapidez e antes mesmo do previsto.

Muito se falava sobre uma possível segunda onda em outubro, mas os números já voltaram a subir em julho e pioraram em agosto. Com a diferença que, agora, seria bem mais complicado fechar o país por conta da crise econômica. 

Há quem diga que o desconfinamento foi apressado para não perder o timing do verão. É possível. A meu ver, o grande vilão da reabertura foi a dificuldade para rastrear e, assim, evitar novos casos. Os especialistas insistem que é preciso saber quem está infectado e com quem essa pessoa teve contato. Todos devem ser isolados.

A regra não tem funcionado em Madrid. A comunidade falhou no rastreamento e já lidera novamente a lista de infecções na Espanha. O governo estadual, comandado pelo PP, tradicional partido de direita, é alvo de inúmeras críticas por sua política neoliberal e irresponsável na região que mais perdeu vidas para o coronavírus até agora.

Enquanto revisava este texto, a Comunidad de Madrid divulgou que estuda medidas sobre mobilidade e atividades sociais que juntem grupos. Por ora, recomenda evitar viagens e reuniões desnecessárias e, para quem mora em áreas mais afetadas, como os distritos ao sul de Madrid, ficar em casa.

Outra questão é que muitos espanhóis chutaram o balde e decidiram se jogar no verão como se não houvesse amanhã – ou, pelo menos, como se não houvesse coronavírus. A euforia era tanta em junho e julho que a pandemia parecia um pesadelo distante. Pelo visto, muita gente ainda não entendeu a gravidade.

Escutei muitos argumentos do tipo: EU vou aproveitar até a segunda onda chegar, EU não vou parar minha vida enquanto o país não fechar de novo, EU não vou correr tanto risco assim em tal lugar e com tais pessoas etc. Como se a questão não fosse muito mais coletiva do que individual durante uma pandemia tão grave. E, claro, como se não existisse uma cadeia natural de causa e efeito. As consequências estão aí.

Ando me sentindo muito repetitiva, mas acho mesmo que cada um tem que fazer a sua parte nesse pacto social. A sensação que dá é que um pequeno grupo tenta carregar uma multidão atualmente. Esse sentimento é infinitamente mais forte no Brasil, mas vale em alguma escala para a Espanha também.

É verdade que o uso de máscara é respeitado pela maioria dos espanhóis, até mais do que em outros países europeus, mas quase ninguém pareceu disposto a abrir mão de reencontros, viagens entre amigos e, em alguns casos, festas durante o verão.

Tanto foi assim que o perfil dos infectados mudou radicalmente em relação aos primeiros meses da pandemia. Se a Espanha e, sobretudo, Madrid perderam muitos de seus velhinhos na primeira onda, agora veem jovens e adultos de até 40 anos dominando as listas de contágios, justamente pelas reuniões entre eles.

Muitos são assintomáticos e nem sequer sabem que estão infectados. Sem contar que são superativos socialmente. Isso significa que uma pessoa jovem infectada acaba contaminando bem mais gente, inclusive pais e avós, mais vulneráveis pela idade. A situação só não está pior porque parece que os idosos têm se isolado mais e corrido menos riscos agora.

Mesmo assim, há uma apreensão no ar, ao menos em Madrid.  A volta às aulas, no início de setembro, também é foco de incertezas na região. Provavelmente, não será 100% presencial.

Disputas políticas e negacionismo

Mais grave é acompanhar governos regionais de direita travando quedas de braço com o governo central de esquerda num momento que deveria ser de união, a ultradireita – tão saudosa do franquismo – comparar isolamento social com ditadura e as teorias negacionistas ganhando cada vez mais força.

Ao ponto de levar cerca de 2.500 pessoas às ruas de Madrid para protestar contra o uso de máscara e, pasmem, as medidas de combate a uma “falsa epidemia”. Para os brasileiros, esse tipo de delírio coletivo não parece tão inusitado assim, infelizmente.

O fato é que o coronavírus já modificou completamente a forma como interagimos e nos relacionamos e muita gente não quer ou consegue entender que esse é um processo longo e cheio de restrições.

Não sei se o excesso de isolamento tem me deixado pessimista e desiludida com as pessoas. Espero voltar com boas notícias e posts positivos mais para frente, mas no momento é isso que temos.

Foto em destaque: Jorge París

4 comentários Adicione o seu

  1. maria helena disse:

    GOSTEI jOANA DO SEU COMENTARIO. QUANDO PASSAR ESSA AMEACA TEREMOS QUE NOS VER PARA TOMAR UM CAFE…NAO QUERO QUE SUA MAE DIGA QUE EU DESAPARECI…RS RS ..E BEIJINHO (desde fevereiro que estou “abrigada” ao Sul/Oeste da provincia de Toledo, telefonarei para voce quando voltarmos a ter uma vida ..normal…)

    1. Joana Tiso disse:

      Vamos, claro! Na verdade, eu to no Rio com a minha mãe durante essa quarentena sem fim. Te aviso quando voltar a Madrid. Beijos e se cuida 😘

  2. Bianca disse:

    Eu amo esse blog, seus textos, a Espanha!
    Novamente assertivo esse texto, estou na mesma sintonia que vc.
    Triste e bastante preocupada.
    Repetitiva e bastante decepcionada com o desrespeito e irresponsabilidades de tantos.
    Um pouco pior, já que estou no Brasil, RiDeJanero. Sim.
    Sem expectativas, trancada em casa há 158 dias, 100% desses 158 dias, sigo incrédula com o vejo pela internet/tv sobre o que está lá fora…

    1. Joana Tiso disse:

      Obrigada, Bianca! ❤️
      Eu to no Rio também. Vim cuidar dos meus pais e sigo sem previsão de voltar a Madrid. Vamos ver se consigo até o fim do ano (acho difícil). Meu namorado tá lá e já voltou para a quarentena.
      É impressionante como a gente vai ficando cada vez mais exausta emocionalmente, né?! E fisicamente também. Eu to sem energia alguma.
      E bastante desiludida com as pessoas, inclusive na Espanha. Tempos difíceis! Força aí e se cuida 🙂

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