Uma semana em Portugal

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Ponte Luís I (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Portugal é uma ótima opção de viagem para quem mora em Madrid. Lisboa está a apenas uma hora de avião daqui, forma mais rápida e muitas vezes mais barata de visitar a terrinha saindo de Madrid. Se preferir viajar de carro, são um pouco mais de 600 km de estrada entre as capitais. Eu já fiz até de trem, mas esta é disparada a alternativa mais demorada – são aproximadamente 10 horas de viagem.

A proximidade é só um dos muitos atrativos. Quer outro? Portugal oferece uma orgia gastronômica por um preço simpático. Lisboa é, aliás, mais barata do que Madrid (Porto é ainda mais), embora eu tenha achado tudo um pouco mais caro desta vez. Afinal, o país está na moda.

Resumindo: Portugal é logo ali e o custo-benefício é bem favorável.

Para quem tem mais ou menos uma semana, indico dividir a viagem entre Lisboa e Porto e fazer alguns bate-voltas para cidades próximas. Outra possibilidade é aproveitar estes dias nas praias do Algarve, mas aí é uma viagem completamente diferente.

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Estação Campanhã (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Eu escolhi a primeira versão para o meu roteiro em setembro. Comecei pelo Porto (três dias) e de lá peguei um trem para Lisboa (quatro dias). Foram pouco mais de três horas de viagem e a passagem custou cerca de 25 euros – saindo da estação Campanhã, no Porto, e chegando à estação Oriente, em Lisboa. A duração e o preço variam, então é aconselhável consultar o site Comboios de Portugal.

Lisboa é uma velha conhecida, mas esta foi minha estreia no Porto. Alguns cantos da cidade me lembraram Salvador; outros tinham um clima de interior de Minas. O fato é que só chegar a Portugal que já me sinto bem mais perto de casa.

Não há um abismo cultural entre Espanha e Brasil, claro, mas é injusto comparar com a proximidade que temos de Portugal. Há referências ao Brasil em tudo quanto é canto. Já no primeiro dia, no Porto, escutei Dorival Caymmi durante o almoço, li sobre a turnê de 50 anos de carreira da Gal Costa e soube da peça que Miguel Falabella apresentou por lá.

Primeira dica: muitos locais em Lisboa e, sobretudo, no Porto não aceitam cartão. Muitos mesmo. É bom ter sempre algum dinheiro no bolso para comida e transporte. Há caixas eletrônicos espalhados pelas cidades, como nas estações de trem.

Primeira parada: Porto

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Minha vista no Porto (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Minha dica de hospedagem no Porto é: fique no centro histórico, ali pela Praça da Liberdade, bem no bafafá mesmo. A cidade é cheia de ladeiras e o sistema de transporte público não é tão amplo quanto o de Lisboa. Eu preferi o Airbnb por causa do preço. O apartamento era ótimo, mas estava a pelo menos 20 minutos subindo do metrô. Se não arrumar nada no centro, busque algo pertinho do metrô para facilitar a vida.

Entre os hotéis mais disputados no Porto estão o Flores Village, um casarão antigo com apartamentos modernos e ótimas notas no Booking, o Pestana Porto, bem no Rio Douro e com linda vista para Gaia, e o Pão de Açúcar, que fica no centrão e conquista pelas tarifas mais atraentes.

Se você vir esta dica tarde demais, saiba que o táxi é uma opção relativamente barata por lá. No Porto, costuma-se pedir táxi por telefone ou pegar em pontos. Se você estiver no centro, pode pegar no ponto da estação São Bento, por exemplo. Na rua mesmo eu não consegui achar um que estivesse livre.

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Rio Douro (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Um roteiro de três dias no Porto é bem redondinho e permite até algum bate-volta. Apesar de ser uma das maiores regiões de Portugal, o Porto mesmo tem menos de 250 mil habitantes. Rola aquele clima de cidade pequena e histórica, embora o centro tenha passado por um processo de transformação nos últimos anos, recebendo novos bares, restaurantes e hotéis – e cada vez mais turistas.

Centro do Porto 

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Porto (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Tire um dia para bater perna no centro histórico e outro para conhecer a Vila Nova de Gaia. No centro, comece o passeio na centenária Avenida dos Aliados, ali pela Praça da Liberdade. Não deixe de visitar a estação São Bento, com lindos azulejos e um gostoso café, e a Livraria Lello e Irmão, que inspirou alguns cenários de Harry Potter e já ganhou o título de mais bonita do mundo. São 5,50 euros para entrar, que podem ser descontados na compra de livros (compre aqui).

Comes e bebes

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Bacalhau no Porto (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

O turístico Café Majestic, recomendado por todos os guias e roteiros sobre o Porto, fica bem ali no centrão. É uma espécie de Confeitaria Colombo, com mais de cem anos de história e lindeza. A questão é que a comida não é a melhor da região e o preço é salgado, então sugiro passar por lá no café da manhã ou no lanche da tarde. Vai ser uma experiência mais agradável e econômica.

Para almoçar bem e barato, minha dica é procurar restaurantes simples e menos turísticos. Há vários maravilhosos espalhados (e escondidos) pelo centro. Na lateral da estação São Bento, numa rua menos movimentada (Rua da Madeira), achei a Casa Viseu no Porto. Com cara de pé-sujo e atendimento despretensioso, o restaurante tem um bacalhau sensacional – o melhor que comi por lá. A francesinha da casa também parece fazer sucesso. E tudo por um preço bem camarada.

Falando em economia, é possível tomar vinho com poucas moedas no Porto. Encontrei um restaurante que serve a taça por 0,70 centavos de euro. Juro. O nome é Churrasqueira Campanhã e fica quase em frente à estação de trem Campanhã. A comida não é gostosa como a do Viseu, mas o preço do vinho vale o registro.

Não tive tempo de provar, mas escutei boas recomendações do Fish Fixe, perto da Ponte Luis I, que une Porto e Vila Nova de Gaia, e de Os Lusíadas, em Matosinhos. Uma sugestão de programa bem no estilo entre tapas y cañas é sentar na beira do Rio Douro com uma taça de vinho na mão (eu preferi fazer isso do outro lado do rio; explicarei a seguir).

Dicas fora do centro

Se estiver a fim de estender o dia, aventure-se fora do centro. Duas sugestões vizinhas: Casa da Música, uma construção moderna no meio de uma cidade antiga e lar da Orquestra Sinfônica do Porto, e o mercado Bom Sucesso, com uma bela variedade de restaurantes, bares e cafés. Tem até açaí (e dos bons). A estação de metrô mais próxima das duas atrações se chama Casa da Música.

Vila Nova de Gaia 

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No alto de Gaia (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Não deixe de tirar um dia para visitar a Vila Nova de Gaia, separada do Porto pelo Rio Douro. Basta cruzar a Ponte Luís I a pé (o trajeto é curto) ou de transporte público, como o bonde. Táxis também podem passar por ali. A principal vista de Gaia é o Porto, lindo de dia e de noite. Pegue o teleférico para curtir um pôr do sol impressionante. Há um bar lá em cima com vista privilegiada. Se você gosta de fotografia, já pode começar a comemorar.

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Restaurante Rabelos (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

O Porto é um dos dez melhores destinos do mundo para tomar vinho e os preços não assustam. Aliás, em Gaia ficam as caves de vinho do Porto, com direito a visita e degustação. Minha dica de almoço por ali é o Rabelos, em frente ao Douro. O queijo de cabra com lascas de amêndoa e mel é divino. Já viu alguém repetir a entrada? Pois é. Este foi meu almoço mais caro no Porto (cerca de 30 euros por pessoa com gorjeta). Valeu o investimento.

Bate-volta saindo do Porto

Há boas e variadas opções de bate-volta a partir do Porto, que fica mais ao norte de Portugal. Destaco três: Guimarães, Coimbra e Aveiro, que foi a minha escolha nesta viagem. Fiz Porto x Aveiro de trem (a viagem varia de 30 minutos a uma hora).

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Aveiro (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Chegando à estação, siga pela Avenida Dr. Lourenço Peixinho até a Praça Humberto Delgado. É ali que vai começar o seu passeio por Aveiro, que tem uma ria cortando a cidade e muitos barquinhos coloridos. Por isso a fama de pequena Veneza de Portugal. É uma graça.

Há praias em Aveiro, mas eu fiquei apenas na zona central. O centro é pequeno e fácil de ser explorado. Então, mesmo que você tenha apenas uma manhã ou uma tarde, vale o bate-volta.

Você vai reparar na quantidade de pastelarias com ovos moles, um dos símbolos da confeitaria portuguesa. É possível provar apenas um ou comprar uma caixa. Eu não resisti. Me informaram que pode ser consumido em aproximadamente 15 dias. A tradicional Confeitaria Peixinho é um dos muitos lugares que oferecem ovos moles na cidade.

Segunda parada: Lisboa

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Praça do Comércio (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Não me canso de ir a Lisboa. A comida é maravilhosa, os bairros antigos são um charme, o céu é lindo de morrer, a noite é animada, o povo é divertido e por aí vai. Sem contar o clima de “casa”. Para quem ainda não decidiu onde ficar, recomendo buscar hotel ou Airbnb ali pela Avenida da Liberdade. É bem central e tem bastante opção de transporte público, além de muitos táxis. Há um Ibis na região com bons preços (e uma ladeira de brinde). Uma alternativa bacana de hospedagem é o Chiado, um dos bairros mais charmosos e boêmios de Lisboa (não tanto quanto o vizinho Bairro Alto).

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Lisboa (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

O sistema de transporte público da capital oferece linhas de metrô, ônibus, bonde, trem e elevador. E as corridas de táxi dificilmente saem por mais de 10 euros. O metrô é muito menor do que o de Madrid (são quatro linhas), mas cobre bem a cidade. Uma dica: guarde o bilhete até o fim da viagem, pois será necessário passar com ele pela catraca na saída.

Lisboa é pequena se comparada a Madrid, mas não se iluda: três dias ainda é pouco para curtir tudo o que a capital portuguesa tem a oferecer. Eu fiquei quatro dias desta vez, sendo um deles para bate-volta.

Passeios imperdíveis

A dupla Chiado e Bairro Alto é absolutamente imperdível. Um dos bairros mais antigos de Lisboa, o Chiado se orgulha de sua arquitetura – até as lojas mais modernas mantiveram suas fachadas originais. Aliás, é a melhor opção para quem quer fazer compras, com marcas internacionais famosas e também locais. Já que citei a Lello e Irmão do Porto, deixo uma dica de livraria em Lisboa: Bertrand, a maior de Portugal e a mais antiga do mundo (funciona desde 1732). Em Chiado fica também o turístico e centenário café A Brasileira, com uma estátua de Fernando Pessoa na entrada.

Ao lado do Chiado está o Bairro Alto, região mais boêmia da capital e com intensa vida noturna. Há uma variedade enorme de bares, um ao lado do outro – e alguns com cerveja a um euro. Para quem é de vinho, sugiro a Garrafeira Alfaia. Se estiver por ali durante o pôr do sol, dê um pulo no Miradouro São Pedro de Alcântara, entre Bairro Alto e Príncipe Real, para curtir uma bonita vista de Lisboa. Aliás, há lindos miradouros na cidade.

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Belém (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Agora, se você busca uma noitada um pouco menos turística, vá à Rua “Cor de rosa” (na verdade, Rua Nova do Carvalho, junto ao Cais do Sodré), eleita uma das ruas preferidas do The New York Times na Europa. É um daqueles casos de regiões abandonadas que ganham vida nova e muitos fãs. Por lá turistas e locais se misturam num clima descontraído. É a noitada cool de Lisboa (e o chão é de fato rosa).

Alfama, capital do fado, e Belém, dona do pastel mais famoso da região, também proporcionam passeios impregnados de história e lindas fotos. Não deixe de ir.

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Museu da Cerveja (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Já a Praça do Comércio, mais conhecida como Terreiro do Paço pelos locais, é tipo a nossa Plaza Mayor, bem central e cheia de turistas. A lisboeta, porém, leva uma vantagem: tem vista para o Rio Tejo. Basta cruzar a praça para chegar à beiro do rio. Aproveite para tomar algo no quiosque Ribeira das Naus enquanto curte o visual, que é deslumbrante.

Outra dica por ali é o Museu da Cerveja. Trata-se de um bar com um pequeno museu em cima. O tour, que percorre a história das cervejas dos países de língua portuguesa, custa 5 euros (com direito a uma cerveja) e a brasileira Bohemia é um dos destaques atualmente. No bar, peça o bolinho de bacalhau, que eles chamam de pastel, com queijo da serra para acompanhar o chope, conhecido como imperial em Lisboa. É espetacular.

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Estádio da Luz (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Para quem gosta de futebol, vale muito a pena assistir a um jogo do Benfica. Eu paguei 35 euros por um lugar na terceira ou quarta fila, logo atrás do banco de reservas. O Estádio da Luz (ou Estádio do Sport Lisboa e Benfica) é bonito e a torcida portuguesa é mais animada do que a espanhola, principalmente se comparar com a do Real Madrid, que não costuma cantar muito (a do Atlético de Madrid é mais agitada).

Há duas estações de metrô perto do estádio: Alto dos Moinhos e Colégio Militar. No caminho até o estádio, você vai passar por ambulantes e barraquinhas vendendo camisas, bandeiras, cachecóis e tudo mais do Benfica. Há também trailers com comidinhas e cerveja ao redor (não é permitido beber dentro do estádio).

Comidas e bebidas típicas

A cozinha portuguesa oferece maravilhas e é difícil escapar do clássico. Se você curte bacalhau, sugiro o Zé da Mouraria (para o almoço) e o Bota Alta (para o jantar). Para quem quer se jogar na culinária portuguesa, indico também o Mercado da Ribeira, em frente ao Cais do Sodré. Reformado em 2014 e com curadoria da revista Time Out, o mercado tem dezenas de restaurantes, alguns de chefs portugueses bem conhecidos, como Henrique Sá Pessoa. Eu comi um salmão selado magnífico por lá.

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Pastéis de Belém (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

O pastel de nata mais famoso de Lisboa é o de Belém, conhecido como pastel de Belém. É de fato delicioso e o lugar é cheio de história, sem contar que Belém é uma região imperdível. Há, porém, um concorrente que tem conquistado cada vez mais fãs na capital. Fica em Chiado, ao pé da estátua de Camões, na Manteigaria.

Outro clássico de Lisboa é a ginjinha, um licor típico (e bem doce) português. Quer? Ginjinha Sem Rival e A Ginjinha estão no Rossio, bem no centrão, e servem belas ginjinhas aos seus visitantes.

Bate-volta saindo de Lisboa

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Ericeira (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

O bom de ficar quatro dias em Lisboa é a possibilidade de conhecer ao menos uma cidade próxima. Recomendo quatro passeios sensacionais: Cascais, Sintra, Óbidos e Ericeira. Meu bate-volta desta vez foi Lisboa x Ericeira, reserva mundial de surf. Para o El País, “un rincón secreto de la costa de Lisboa”. Ericeira está a 49 km da capital e o percurso é feito de ônibus.

Minha dica para o fim de tarde é o Boardriders Ericeira, loja da Quiksilver com área de 540 metros quadrados num espaço que combina surf, skate, moda e música. Há um café dentro da loja e um bar ao ar livre, com vista para a praia e programação de shows. É uma delícia.

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Ericeira (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

Além das praias, Ericeira tem um centro histórico bonitinho, onde é possível comer bem. Eu arrisquei um almoço no Com pinta e dei sorte. Estava tudo delicioso. Se você gosta de suco natural, aproveite para tomar algum em Ericeira, já que em Madrid é difícil de encontrar nos restaurantes. Para uma pausa à tarde, escolha algum café ou uma pastelaria na Praça da República.

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Ericeira (Joana Tiso / Entre tapas y cañas)

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