Como Madrid reage ao terrorismo (força, Barna)

bcnO que sei do atentado terrorista em Barcelona foi o que a imprensa espanhola me contou. Fiquei com a televisão ligada por umas cinco horas seguidas. Foram ao menos 14 mortos, entre eles crianças, mais de 100 feridos e uma imensa tristeza. Ou seja, sei mais ou menos o que vocês sabem aí no Brasil. A diferença é que Barcelona está aqui do lado. Então, o assunto na TV e as conversas de rua giram todos em torno do ataque. Neste post excepcional, tentarei contar como eu sinto o clima em Madrid em relação ao terrorismo (de Barcelona não posso falar) e, quem sabe, acalmar quem tem viagem marcada para os lados de cá.

O madrileño é festeiro por natureza e adora sair de casa. Não sei como será a vida após o ataque de Barcelona, mas até então eu não percebia medo por parte da população daqui – embora o alerta antiterrorista esteja no nível quatro de cinco nos últimos anos. Desde que me mudei de vez, em dezembro, pouco escutei sobre terrorismo nas ruas da capital.

Comentam sobre os resquícios da crise, falam da dificuldade em encontrar bons empregos, reclamam da corrupção, lamentam o calor absurdo do verão, criticam o cheiro das ruas, planejam as festas do fim de semana, mas terrorismo não era tema recorrente nem parecia mudar a rotina do povo por aqui.

Agora o assunto voltou com força à pauta. Só se fala sobre terrorismo na imprensa e nas redes sociais. Ainda é muito recente, mas o que escuto desde o atentado é que o medo não vai vencer nem paralisar os espanhóis. Minha percepção, no segundo dia pós-ataque, é que a rotina segue em Madrid sem mudanças bruscas. Se sentir alguma transformação no dia a dia dos madrileños, venho atualizar o post e aviso para vocês nas páginas do blog.

Atualizando 20 dias pós-atentado: a vida em Madrid segue agitada, ainda mais em setembro, com o fim das férias, e sem mudanças na rotina. Já não se fala tanto em terrorismo por aqui. O que observo, de diferente, é um aumento de obstáculos nas ruas de pedestres (para evitar carros) e de policiamento nas zonas mais turísticas da capital.

Repercussão nas ruas e nas redes sociais

O que percebo por aqui logo depois do atentado, claro, é comoção geral e solidariedade. O madrileño está abalado e mobilizado. Madrid cumpriu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas (como o resto do país) e, na noite de sexta, dia seguinte ao ataque, as luzes do palácio e da fonte de Cibeles foram apagadas e acesas com as cores da bandeira de Barcelona. Além disso, encontrei flores na Calle Barcelona, que fica no centrão de Madrid.

Nos últimos anos, o clima em Madrid é de acolhimento e respeito (leia mais aqui). Agora, já há quem peça, nas redes sociais da prefeitura, que retirem o cartaz de boas-vindas aos refugiados no Palacio de Cibeles e deixem de ser tão tolerantes com os estrangeiros. A ver como será o ambiente daqui em diante numa cidade cada vez mais multicultural.

Noto também, com preocupação, mensagens de ódio na internet aos muçulmanos que vivem na Espanha – atitude que já começa a ser rechaçada e rebatida aqui e, sobretudo, em Barcelona, cidade exemplo em tolerância.

A imprensa espanhola classifica os islamofóbicos como uma minoria fascista e estimula, junto com o governo, a unidade do país (historicamente dividido). Os muitos muçulmanos da Espanha declaram: os que matam não são muçulmanos, são terroristas. E esperam seguir a vida normalmente por aqui.
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Pior atentado desde o M-11

Este foi o oitavo atentado com atropelamento na Europa no último ano, três deles em Londres e o primeiro na Espanha. Naturalmente, o alerta foi ligado em Madrid também. Há mais de dez anos, em 11 de março de 2004, Madrid foi alvo do ataque terrorista – conhecido como M-11 – que provocou mais mortes no continente desde 1988. Foram 191 vítimas fatais e mais de 2.000 feridos. Até hoje o episódio é lembrado e lamentado com muita dor.

O atentado de Barcelona foi o mais grave sofrido pelo país desde o M-11. A Espanha mantém o alerta antiterrorista no nível quatro de cinco há pouco mais de um ano e meio, quando ocorreu o ataque em Paris. Se trata de um perigo alto, mas não é o máximo, quando o risco é muito alto ou iminente.

Segurança pós-ataque

A polícia declarou, no dia seguinte ao atentado de Barcelona, que seguimos em nível quatro (porém reforçado) e pediu cuidado com boatos. Gravações falsas foram espalhadas pelo WhatsApp, estimulando o pânico. O nível quatro reforçado pressupõe um fortalecimento da segurança, principalmente nas zonas mais turísticas, entre outras medidas.

O governo descartou elevar o alerta de ataque para o nível cinco em decisão unânime – o que incluiria a participação do exército. O objetivo é transmitir uma mensagem de tranquilidade à população, embora o risco ainda seja alto (alerta quatro) e ao menos um terrorista que atacou a Catalunha siga desaparecido.

A impressão que eu fico aqui é de que população e imprensa apoiam e confiam na segurança e no trabalho antiterrorista feito no país.

Grandes eventos em Madrid

Não houve ataque terrorista em Madrid depois da tragédia de 2004, mas o sinal vermelho nunca mais foi desligado pelas autoridades. O que percebo nas ruas é um aumento constante no policiamento, principalmente nas zonas mais turísticas, como a Puerta del Sol, que costuma receber uma multidão na noite do réveillon, por exemplo. Na véspera do ano-novo rola sempre um ensaio no Sol – já com público. Passei por lá no ano passado e vi longas filas com pesada fiscalização na entrada (imaginem, então, o esquema do dia 31).

Todo evento de grande porte e público gera preocupação do governo por aqui. Em junho deste ano, Madrid sediou o World Pride por dez dias e abrigou uma quantidade enorme de turistas. O evento subiu o alerta para atentado terrorista, o que levou a polícia nacional a se unir à polícia municipal na segurança das ruas que receberam as festas do Orgullo Gay, mobilizando 3.500 efetivos.

A imprensa espanhola foi só elogios ao esquema de segurança e classificou o evento como histórico (“un ejemplo”). De fato, só vimos festa, amor e tolerância por aqui.

O aumento de policiais também é notado nas finais de futebol, como aconteceu no jogo entre Barcelona e Alavés pela Copa del Rey, em maio (a final deste campeonato é sempre jogada em Madrid e com a presença de autoridades). Foi a primeira vez no ano que escutei algo sobre terrorismo nas ruas da capital.

Na ocasião, a Espanha manteve o alerta antiterrorista no nível quatro, mas ficou evidente que havia mais preocupação e muito mais policiamento do que o normal, com cerca de 2.500 agentes – e muitos turistas – pelas ruas no dia do jogo.

E agora?

O post vai ficar assim, sem final, na esperança de que eu possa trazer notícias de amor, paz e tolerância para completar o texto no futuro. Se ficar com alguma dúvida ou com vontade de debater o assunto, é só entrar em contato.

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